Neste período, já sob forte influência do bolero e da canção popular norte-americana veiculada no Brasil principalmente através do cinema, o samba-canção se populariza e também sofre transformações estruturais tais como a elaboração harmônica e a incorporação do recitativo1 à sua forma. A temática do amor romântico torna-se o centro das narrativas e abre-se espaço, então, para as vozes femininas de tessitura grave. É exatamente aqui que surge a canção que fica popularmente conhecida como "música de fossa" e/ou "música de dor-de-cotovelo", repertório este que tem como tema central a perda amorosa.

É também neste momento que as vozes adotam um comportamento mais econômico e a demonstração de potência vocal como principal atributo do cantor dá lugar à expressividade dramática para que a voz possa significar, também no campo sonoro, aquilo que os textos musical e poético exprimem.

O estudo deste período colocará o aluno em contato com as obras de António Maria, Lupicínio Rodrigues, Fernando Lobo, David Nasser, Monsueto, Dolores Duran e Maysa, entre outros compositores. Serão estudadas as vozes de Dick Farney, Nora Ney, Lúcio Alves, Jorge Goulart, Dolores Duran, Ângela Maria, Maysa, Cauby Peixoto, Elizeth Cardoso, Roberto Silva, Isaura Garcia e outros cantores da época.

Este novo tratamento dispensado à interpretação da canção brasileira atinge seu ápice com o lançamento do LP  Canção do amor demais onde Elizeth Cardoso cantava canções da dupla de compositores então iniciantes, Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. Nesta fase a produção original de canção brasileira vai progressivamente se distanciando das ruas e ocupando espaço nos apartamentos da Zona Sul carioca assim dando voz aos jovens de classe média alta.

Contudo, é só com o surgimento do espantoso "violão gago" ao incrível e peculiar canto-falado de João Gilberto, baiano de Juazeiro, que esta nova abordagem se consagra na voz na canção popular. Do ponto de vista vocal, o lançamento do LP  chega de saudade é o marco inicial da Bossa Nova. A relação entre voz e instrumento se redimensiona e o intérprete sai do isolamento frente à instrumentação e passa a ocupar um espaço de compartilhamento de uma mesma canção, lado a lado com esta instrumentação.

Mesmo sendo a questão amorosa a temática central das composições, a leveza e a beleza

- ou seja, o exercício do equilíbrio estético - passam a ser o principal norte das composições e do cantar.

Além de João Gilberto, aqui os alunos entrarão em contato com as vozes de Nara Leão, Leny Andrade, Joyce, Johnny Alf, Dóris Monteiro e outros intépretes contemporâneos e também com as composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Johnny Alf, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, entre outros.

É importantíssimo lembrar que gêneros regionais tais como o baião, o forró, o côco e a música sertaneja chegam ao mercado fonográfico no final dos anos de 1940 trazidos por seus artistas mais expressivos que também são estudados neste módulo. Entre eles se destacam Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Jackson do Pandeiro, Cascatinha e Inhana e tantos outros.

1 Recitativo: parte inicial de uma canção relacionada com o tema central desta mais pelo conteúdo do texto que propriamente pelo desenvolvimento musical. A prática se desenvolveu bastante na ópera como maneira de encadear a história contada com as peças compostas e, do mesmo modo, acontece no teatro musical e no cinema dos anos de 1940, fase inspiradora do samba-canção.

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