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Canto do Brasil entrevista Ná Ozzetti

08.05.2017

Não é a tarefa mais fácil pensar no que perguntar para aquela que é, de fato, não só uma das profissionais mais respeitadas da nossa área, mas pessoalmente, uma das maiores e mais importantes referências artísticas que tenho. Pensar sobre processos sempre me foi incrivelmente atraente, então resolvi que saber mais sobre os processos de Ná Ozzetti e, sem me surpreender, tive uma aula. Ou muitas aulas sobre o tema. E estão todas aqui na firme, delicada e inspiradora conversa que tive com ela. Firme, delicada e inspiradora feito seu canto.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Com vocês, Ná Ozzetti:

 

 

 

 

Ná, estamos todos muito felizes com a sua chegada aqui no Canto para essa masterclass. Como será essa "grande aula"?

 

Pra mim será um desafio, pois é a primeira vez que dou uma masterclass numa escola como o Canto do Brasil. Minha experiência como professora sempre foi como autônoma, no sentido de ter desenvolvido intuitivamente uma forma de dar aulas, apesar de ter estudado canto lírico por muitos anos. Mas dar aulas é muito diferente e cada aluno é um universo de possibilidades e vivências próprias que temos que aprender a ler. Quando procurei a escola e a Regina propôs a masterclass, percebi que de alguma forma, já tinha praticado muito este método com meus antigos alunos, então fiquei estimulada a encarar.

 

Como se dá o seu processo de escolha de uma canção? É puramente emocional ou você pensa nas possibilidades de trabalho que cada canção pode ter durante essa escolha?

 

As duas coisas e ainda mais. Não há uma regra para mim. As canções me apontam os caminhos, tanto para a forma de interpretá-las como no tratamento dos arranjos. Nos meus trabalhos solo vou escolhendo pelo conteúdo, faço um balanço e tento estabelecer uma relação entre elas, vou brincando com isso. Acabo cantando canções em trabalhos de outros artistas também que já chegam pré escolhidas por eles. Neste caso, não sou eu que as escolho e meu trabalho é desenvolver uma relação com elas

 

Quando ouvimos sua obra, temos a nítida sensação de que os arranjos costumam ser construídos sobre o seu canto. Sobretudo quando em duo - com o Mehmari ou com o Dante, por exemplo, essa sensação passa a uma despretensiosa certeza. É assim mesmo esse processo? Você pensa sobre a parte instrumental também ou aposta na troca com os instrumentistas? Como acontece essa criação?

 

Cada trabalho é um processo diferente. Com o Dante - meu parceiro mais antigo e mais presente na discografia solo - construímos juntos os arranjos na relação voz e violão nos primeiros shows e no primeiro disco. Naquela época gostávamos de desconstruir as canções e remontá-las, então eu tentava fazer isso com a interpretação e ele com o violão até chegarmos a um ponto em que a coisa ficava orgânica [pra nós, pelo menos]. Nos trabalhos posteriores, esta prática foi ganhando mais maturidade e naturalidade e encontrando outros caminhos, mas acabamos desenvolvendo uma relação de trabalho nossa. Só trabalho desta forma com o Dante. Nos meus trabalhos solo, a interpretação é sempre construída em função da idéia de arranjo que nasce primeiro que desenvolvo inicialmente com o Dante e em seguida levamos pra banda onde há uma criação coletiva a partir das bases que já criamos. A interpretação então se desenvolve e toma forma posteriormente.

Com o André Mehmari o processo foi bem diferente. Ali éramos um Duo de piano e voz. Dois solistas atuando em conjunto. Dois intérpretes simultâneos. Houve uma simbiose rápida entre nossos instrumentos. No meu caso, a interpretação era estimulada pelo piano, pela canção e vice-versa. Eu jogava, ele rebatia, e assim fluiu...

Mas tem outras experiências e condições diferentes das duas citadas acima em outros trabalhos e parcerias que são muito importantes pra mim também. Todas muito enriquecedoras. Nunca paramos de aprender.

 

O corpo presente de um cantor é sempre uma questão relevante. Nos seus shows você combina uma presença marcante com uma singeleza encantadora sobre o palco e notamos sua integralidade em cena. Como se deu essa construção? Ou é inata?

 

Bem, cantar, soltar a voz, sempre foi natural para mim, desde criança. Cantava em qualquer lugar, mesmo que não me pedissem, rs... Fora isso, era uma pessoa tímida.

Quando entrei para o Grupo Rumo, meu primeiro trabalho profissional, senti uma certa dificuldade no palco. Não para soltar a voz, obviamente. Então uma amiga me indicou aulas de dança com o Klauss Vianna. Fui cair logo no mestre dos mestres, tive sorte! A partir daí abriu-se uma gigantesca porta para o entendimento de muitas coisas sensíveis que nortearam minha vida e meu trabalho e nunca mais parei de dançar. Inclusive minha relação com a técnica vocal é totalmente sustentada pelas experiências com a dança.

Continuei tímida e nunca tentei aplicar passos de dança nos meus shows, a não ser quando fui dirigida pela diretora de teatro Eugênia Andrade - que me fazia dançar no palco. Só assim mesmo. No mais, a relação corpo/palco/voz foi se dando naturalmente pela ação do tempo e do trabalho.

 

Além de cantora, você é compositora também. Como se dá esse processo seu processo de composição musical? E sobre a Ná letrista? Você compõe cantando?

 

As composições nascem sempre a partir de uma idéia musical, faço as músicas e meus parceiros, as letras. Vou desenvolvendo uma ideia inicial até chegar em uma forma de canção. Adoro esse processo! Tenho mais facilidade com o piano, então este desenvolvimento se dá geralmente ali. Mas gosto também de compor usando tecnologia que me permite gravar instrumentos em pistas separadas via teclado midi. Daí a composição já vem com ideia de levada, umas pitadas de arranjo e tudo mais. 

 

Ao estudarmos a história da voz na canção brasileira, nos referimos a Nara Leão como uma cantora de vanguarda, alguém que captava as movimentações artísticas importantes e estava sempre entre elas quando aconteciam. Então avançamos no tempo, chegamos a vanguarda paulista e encontramos você menina e já com uma expertise hipnótica no cantar. Quando chegamos ao agora e estudamos sua história vocal vemos o mesmo avant garde em você com uma capacidade de transição entre os diferentes meios musicais que nos deixa, de fato, boaquiabertos. Esses "ouvidos tão abertos" você atribui a quê?

 

Nossa! Obrigada pelos elogios. Mas realmente não acho que sejam tão especiais esses atributos que você menciona. Pra mim é natural a necessidade transitar entre diferentes naturezas. Antes de entrar para o Rumo, já tinha cantado rock, samba e meu primeiro emprego na área foi como crooner numa gafieira. Quando conheci o grupo Rumo fiquei encantada pela proposta inusitada, pela forma como trabalhávamos, cheia de experimentações e livre de compromissos com regras do mercado. Daí surgiram para mim os colegas de geração com outras propostas incríveis e singulares: Itamar, Arrigo, Premê.. era apaixonante viver aquilo, o que me fazia transitar pelos shows e bastidores. Estou falando dessa época porque foi o início de muita coisa. Mas o fato é que a música é tão fundamental na minha vida que não consigo ficar ligada a uma ou outra tendência ou gênero. Ao mesmo tempo, não consigo deixar de vibrar quando algo me toca. Quando surge um trabalho que me diz algo profundamente, vou ao seu encontro, de braços abertos. É o que me deixa mais feliz na vida!

 

Tem muita gente nova incrível fazendo música boa hoje. Você está ali com o pessoal do Passo Torto naquele disco que, além de brilhante é contagiante; você participa do disco da Juliana Perdigão em uma canção sua em parceria com o João Antunes [que foi professor do Canto também]. Quem mais não se pode deixar de ouvir?

 

Realmente estamos vivendo um momento especial com o surgimento de tantos músicos maravilhosos e muito bem preparados. Além disso os trabalhos são criativos e têm personalidade. Posso citar aqui alguns - são muitos! -: o próprio Passo Torto acho incrível, invenção na potência máxima. E de cada um dos integrantes [Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes, Marcelo Cabral] em seus trabalhos individuais e nas outras formações como Metá Metá, por exemplo. Tulipa, Anelis, Céu, Juçara, Lívia Nestrovski e o Fred Ferreira, Patricia Bastos, André Mehmari, Zé Manoel... certamente deixei de citar muitos importantes aqui, é difícil essa parte... além dos que nem conheço ainda...

 

Por fim, algum conselho para nossos alunos?

 

Se é pra dar conselho, será sempre botar fé no que faz, e nunca parar de estudar. O tempo facilita as coisas, mas sempre temos muito a aprender.

 

 

Obrigada, Ná!

 

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